sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

A DOUTRINA DO SONO DA ALMA (PSICOPANIQUIA)

a. Exposição da doutrina. Esta é uma das formas em que a existência consciente da alma depois da morte é negada. Ela afirma que, depois da morte, a alma continua a existir como um ser espiritual individual, mas num estado de repouso inconsciente. Eusébio faz menção de uma pequena seita da Arábia que tinha esse conceito. Durante a Idade Média havia bem poucos dos chamados psicopaniquianos, e na época da Reforma esse erro era defendido por alguns anabatistas. Calvino chegou a escrever um tratado contra eles, intitulado Psychopanychia. No século dezenove esta doutrina era propugnada por alguns dos irvingitas* da Inglaterra, e nos nossos dias é uma das doutrinas favoritas dos russelitas ou dos sectários da aurora do milênio nos Estados Unidos. Segundo estes últimos, o corpo e a alma descem à sepultura, a alma num estado de sono que de fato equivale a um estado de não existência. O que é chamado ressurreição, na realidade é uma nova criação. Durante o milênio os ímpios terão uma segunda oportunidade, mas, se eles não mostrarem um assinalado melhoramento durante os cem primeiros anos, serão aniquilados. Se nesse período evidenciarem alguma correção da vida, continuarão em prova, mas somente para acabar na aniquilação, se permanecerem impenitentes. Não existe inferno, não existe nenhum lugar de tormento eterno. A doutrina do sono da alma parece exercer peculiar fascínio sobre os que acham difícil acreditar na continuidade da vida consciente fora do organismo corpóreo.
b. Suposta base bíblica desta doutrina. A prova escriturística desta doutrina acha-se especialmente no seguinte: (1) Muitas vezes a Escritura descreve a morte como um sono, Mt 9.24; At 7.60; 1 Co 15.51; 1 Ts 4.13. Este sono, dizem, não pode ser sono do corpo, e, portanto, só pode ser sono da alma. (2) Certas passagens da Escritura ensinam que os mortos estão inconscientes, Sl 6.5; 30.9; 115.17; 146.4; Ec 9.10; Is 38.18, 19. Isto vai contra a idéia de que a alma continua sua existência consciente. (3) A Bíblia ensina que os destinos dos homens serão determinados por um julgamento final e que haverá surpresa para alguns. Conseqüentemente, é impossível imaginar que a alma entra em seu destino imediatamente após a morte, Mt 7.22, 23; 25.37-39, 44; Jo 5.29; 2 Co 5.10; Ap 20.12, 13. (4) nenhum dos que ressuscitaram dentre os mortos jamais deu algum relato das suas experiências. Pode-se entender melhor isso com a suposição de que as almas estavam inconscientes, em seu estado desencarnado.
c. Consideração dos argumentos apresentados. Os argumentos supra mencionados podem ser respondidos como segue, na ordem em que foram expostos: (1) Deve-se notar que a Bíblia nunca diz que a alma cai no sono, nem que o corpo cai no sono, mas somente que a pessoa que morre o faz. E esta descrição escriturística baseia-se simplesmente na similaridade existente entre um corpo e um corpo dormente. Não é improvável que a Escritura empregue esta expressão eufemística a fim de lembrar aos crentes a consoladora esperança da ressurreição. Além disso, a morte é um rompimento com a vida do mundo que nos rodeia e, neste sentido, é sono, é repouso. Finalmente, não devemos esquecer que a Bíblia retrata os crentes como desfrutando vida consciente na comunhão com Deus e com Jesus imediatamente após a morte, Lc 16.19-31; 23.43; At 7.59; 2 Co 5.8; Fp 1.23; Ap 6.9; 7.9; 20.4. (2) As passagens que parecem ensinar que os mortos estão inconscientes visam claramente a salientar o fato de que , no estado de morte, o homem não pode mais tomar parte nas atividades do presente mundo. Diz Hovey: “A obra do artista é interrompida, a voz do cantor é silenciada, o cetro do rei cai. O corpo volta ao pó, e o louvor de Deus neste mundo cessa para sempre”. (3) às vezes se faz descrição como se o destino eterno do homem dependesse de um julgamento no ultimo dia, mas evidentemente isso é um engano. O dia do juízo não é necessário para chegar-se a uma decisão a respeito da recompensa ou da punição de cada homem, mas somente para o solene anúncio da sentença, e para a revelação da justiça de Deus na presença dos homens e dos anjos. A surpresa evidenciada por algumas passagens tem que ver com a base sobre a qual o julgamento repousa, e não com o julgamento propriamente dito. (4) É verdade que não lemos que algum dos que ressuscitaram dentre os mortos alguma vez tenha contado as experiências pelas quais passou entre a sua morte e a sua ressurreição. Mas este é um simples argumento extraído do silêncio, argumento completamente sem valor neste caso, desde que a Bíblia ensina claramente a existência consciente dos mortos. Todavia, pode muito bem ser que as pessoas se mantivessem caladas acerca das experiências, mas isto pode ser prontamente explicado partindo-se do pressuposto de que não lhes foi permitido falar delas, ou que não podiam relatá-las com linguagem humana. Cf. 2 Co 12.4.
(Berkhof, L – Teologia Sistemática Pg 693)

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